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1.2.2008 - Nº 17 = QUADRETO DEVERAS

Quadreto?... Não, não vem no dicionário. Dado que os inventores de palavras ainda não chegaram à necessidade de designar um conjunto de quatro quadras imbuídas da mesma dignidade clássica do soneto, os dicionaristas nunca ouviram falar ou leram um tal vocábulo.
Numa época em que a quadra popular é considerada um efeito literário assaz corriqueiro e muito fácil de fazer, os snobes de cinta com a espada atrás das costas dão-lhe que se fartam para baixo, mas a tipa, pimba, como mosca que pousa em qualquer porcaria, dá-lhes cabo da careca, hoje ornamento propositado dos crânios plenos de correntes-de-ar poluído.
A imagem que me cativou e inspirou, quatro singelas e simpáticas velhotas da lavoura ao computador, é uma das mais clicadas e divulgadas na Internet. Para mais forçar a criatura do quadrado, acrescentei-lhe quatro gatos, dilectos companheiros da velhice solitária e daí quiçá a preferência do arauto da autêntica verdade que assume por gosto a diferença entre as pessoas e os animais.
Para os que não têm a cotadíssima opinião dos que menosprezam a quadra e dão vivas ao Aleixo, «trampolineiros» sem trampolim, o quadreto, por mim considerado, é um conjunto de quatro quadras que tem a pretensão de não desmerecer do soneto, tal como a guitarra portuguesa em relação ao imperativo violino. Aprecie-se, pois, se porventura prouver:



2.2.2008 - Nº. 18
« - TEMOS O PRIMEIRO-MINISTRO MAIS BELO DO MUNDO... NEM O MOURINHO! ...»

------Só eu e alguns firmes amigos meus sabem e conhecem a quem me refiro, a «Céu-do-Céu» (nome poético), uma morenaça cuja figura não é mesmo nada bom - e é muito mais do que bom - um velhote como eu trazer no pensamento. É minha amiga por enternecedor afecto que lhe recorda seu avô e adora dar-me corda. Sempre que fixa seus olhos nos meus, para não tremelicar dos lábios e ao mesmo tempo babar-me, tenho de fugir de ver o que vejo, olhando, por exemplo, para nada com o seu rosto impresso no raciocínio.
------A «Céu-do-Céu» sabe de meus apreços e pendores de roleta nas discussões sobre política. Sabe que eu flecho sobre José Sócrates ao desmedido e também sabe que o prefiro entre as desérticas sombras de areão que sonham roubar-lhe o camelo. Quando lhe digo não acreditar na existência de Deus, mas que acredito que Deus tem voz através do Povo, a «Céu-do-Céu» embirra comigo a sério e replica dez vezes seguidas quase a bater-me que « - Não, não pode ser...»
. ------Bom, estive quinta-feira passada durante um belo pedacinho a palavrear e a rir com a minha amiga. No ensejo, referi que o Sócrates enfim se decidiu por amornar com mais dignidade as gélidas algibeiras dos velhotes em instante aflição e eventuei até sofrear-me na crítica ácida que não tenho cessado de fazer-lhe. Inclusive, propus à mesa e aos ventos que a seguir ao acrescido complemento solidário um raio de objectiva inspiração abrasasse o nosso primeiro-ministro na imediata criação do imposto solidário. Todos aqueles que fruíssem mais do que 3 mil euros mensais, e até aos 50 mil, descontassem de 5 a 25 por cento, algo que adoçaria com razoabilidade o fim-de-vida aos idosos carentes e estabeleceria inequívoca justiça social, fazendo deveras o bem sem olhar a quem, derrubando de uma vez por todas a montanha do egoísmo mesquinho que acoberta dos pés à cabeça a hidra lusitana.
------A «Céu», com os dois pingos de mel-mais-do-que-mel que tem nas órbitras, deliciada a ponto de espantar-me de conspícua invejazinhja, retorquiu maviosa a ronronar:
------ - Torre, temos o primeiro-ministro mais belo do mundo... Nem o Mourinho!...
------ - Vais deitar nele?...
------ - Oh... Eu deitava nele de todas as maneiras...



3.2.2008 - Nº. 19 = OS CUCOS CANTAM BEM, POIS ENTÃO NÃO CANTAM?!...

------Sinto-me de ideal tramado e só não afirmo que estamos todos tramados por que sobram os tramadores e seus influentes acólitos, pagos à lauta e locupletando-se à farta do erário público, legitimados na tramação que pelo voto, a tantos deles sem sabermos como, exercemos.
------Analisem-se dois curiosos e ilativos passos:
------O PR propôs à AR, à data do centenário do hediondo e criminoso regicídio de 1908, um voto póstumo para enobrecimento da memória do rei e do herdeiro então barbaramente vitimados, Dom Carlos e seu filho Luís Filipe.
------Entre a saturante e impositiva lengalenga do nosso representativo encéfalo democrático - três na ferradura, nenhuma no cravo e a bigorna à deriva - o Parlamento recusou a iniciativa presidencial, motivando-se no estupidificante argumento de que uma tal atitude seria lesante dos pergaminhos da República Portuguesa. E essa, ó Pessa?!...
------Sequer se consideram as vicissitudes da estóica caminhada que a monarquia empreendeu ao longo dos séculos e pela qual se constituíram afinal os basilares alicerces do edifício onde a actual deputação se senta.
------A estranhíssima decisão maioritária, talvez tão-só visando uma legião de presumidos papalvos, de imediato fez lembrar-me, em contradição, de um filme que vi há mais ou menos 40 anos, «Álamo», cujo fim evidencia a reconhecida homenagem do general vencedor, em vénia, aos soldados inimigos que gloriosamente soçobraram um a um sitiados dentro do histórico fortim.
------Entretanto, pelo que leio à tecla de Isabel Stilwell, cerca de uma vintena de indivíduos, e entre eles o major Tomé, encaminharam-se para as campas dos regicidas Manuel Buíça e Alfredo Costa para prestar homenagem, com duas coroas de flores, ao «heróico-acto-libertador» que protagonizaram. Também esteve presente o edil de Castro Verde, terra natal de Alfredo Costa, dando ideia que os cidadãos por si representados se orgulham de ter em benquista memória um nu e cru assassino. Em 2008, com historiadores e tudo pelo meio, dou de repente conta que a história começa por ser uma sucessão de factos que se aspergem em lapso-relapso na linha do vice-versa.
------Bom, os jovens em decurso e do futuro que aprenderem e apreenderem a História de Portugal pela cartilha e lupa de tais exemplos, em 2108 e em pleno Terreiro do Paço estarão decerto a incluir na homenagem o terrorista que deitou abaixo a ponte 25 de Abril, nesse longínquo dia considerada um autêntico ninho de cucos em que se estribou o anterior regime.



4.2.2008 - Nº. 20 = O SOLAR DA MARIQUINHAS

------Ontem, dia de Domingo coberto de cinzento, chuvoso, tempo de deita abaixo projectos de sol a pedido, acordei ao redor das três-da-tarde. Ao Domingo o Café Novo está fechado e tenho por hábito matar o meu jejum quatro números de porta adiante para o lado da Lapa, na Cristal, com um salutar prato de canja à moda antiga, autêntica canja que cai que nem canja e a mim cai mesmo a matar. Tenho assim oportunidade de conviver com o Eduardo Jorge e com o Sousa, trocando bem dispostas larachas e comentários aos casos da semana. Depois, à laia de pato-marreco que se move a compasso, de guarda-chuva aberto, atravessei a Praça da República e tomei a direcção da Baixa. Ao descer Alferes Malheiro, de uma janela escancarada num primeiro-andar, a sonora ironia espalhava-se pela rua:

O que é que você vai fazer domingo à tarde,
Pois eu quero convidar você prá sair comigo,
Passear por aí numa rua qualquer da cidade,
Vou dizer pra você tanta coisa que a ninguém eu digo.

Eu não tenho nada prá fazer domingo à tarde,
Pois domingo é um dia tão triste prá quem vive sozinho.
Quando eu vejo um casal namorando, é que eu sinto a verdade.
É tão triste passar o domingo sem ter um carinho.

Se você vive tão só, sei que vai me entender,
Sem amor é muito mais difícil a gente viver,
Pela última vez responda, mas diga a verdade,
Pois eu quero sair com você domingo à tarde.

------Há mais de meio-século que estes versos e a sua melodia, como canja, me caem no ouvido e me confortam esplendidamente, e tanto, a ponto de perdoar a todas as moscas que presumem perturbar-me e desejar-lhes empolgantes aterragens nas carecas dos doutores e de toda a porcaria pior do que a porcaria que até os Desabafos do JN, porque é deveras porcaria de mioleira falhada e falida, inunda de náusea e persiste em confrangedor processo de tónus imbecil.
------Acomodei-me como habitualmente no ciber-café On Web, local onde nos últimos anos aprendi quanto a estupidez é gratuíta, quanto a juventude é capaz de ser senil e quanto a presunção das ratazanas de esgoto podem rapidamente deslizar pela escada abaixo e num ápice fugirem pela escada acima. Como lamento não ser gato lazarento e esfomeado nessas alturas.
------Às seis-da-tarde, sem o esperar, apareceu-me o Alfredo Guedes, e saí logo da minhas queda habitual. Abandonei as teclas e fomos para a Rua do Sol, que até é a rua mais escura da Invicta. Oitenta metros adiante da Capela dos Alfaiates, iria ocorrer a abertura de um lugarzinho típico para se fruir o Fado. Por cima da entrada lia-se «Solar Mirandês».
------A sala estava bem posta e sentia-se que algo especial pairava no ar. Assim que entramos, estavam apenas o dono da casa, um empregado e, pela ampla janela que mostrava a cozinha, vi três afadigadas senhoras ao redor da culinária. O dono era o Samuel, um teimosão em fazer Fado. Já passou pela «Casa da Mariquinhas», pela «Guitarra» e por outras tentativas mais que se goraram entre a assolapante crise-de-tudo que não há meio de deixar-nos o raciocínio para nos libertar a pele.
------Entretanto os pré-avisados convidados foram chegando, o Manuel Granja, que canta e apresenta, os tocadores, Afonso Pinto, à guitarra portuguesa, e Ângelo Jorge, à guitarra clássica de acompanhamento, o Jorge Ferreira, a Elisabeth Pinto, e mais, muitos mais intérpretes e aficionados, até a sala ficar a abarrotar e o Samuel ver-se à rasca para acomodar toda a gente. A cogitar, fui dizendo para o meu fecho de correr: - O Guedes, sem dizer palavrinha, deu-me a volta que nem canja.
------Quando fui solicitado para declamar umas «vulgaríssimas quadrazinhas», algo de sentido óbvio e assaz básico, daquelas baixas coisinhas que os imbecis ao cúmulo, armados em pavões cheios de «coisa», tentam estupidamente rebaixar mais ainda, deu-me para baptizar a casa, uma vez que o Samuel tinha anunciado que ainda ia pensar num novo nome. Baptizei e ficou baptizada com aclamação geral: «Solar da Mariquinhas». O meu amigo Carlos do Carmo, após o encerramento da «Casa da Mariquinhas» na Sé, canta-lhe o funeral em Lisboa, mas eu, pimba, ressuscitei-a no Porto.
------De resto, oh, só agora a reflectir sobre o ensejo do expontâneo bafejo baptismante, é que aquilatato quanto abrangente foi o acto numa época em que os mariquinhas abundam como caganitas de coelho para os cães de caça farejarem.

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