4.2.2008 - Nº. 20 = O SOLAR DA MARIQUINHAS
------Ontem, dia de Domingo coberto de cinzento, chuvoso, tempo de deita abaixo projectos de sol a pedido, acordei ao redor das três-da-tarde. Ao Domingo o Café Novo está fechado e tenho por hábito matar o meu jejum quatro números de porta adiante para o lado da Lapa, na Cristal, com um salutar prato de canja à moda antiga, autêntica canja que cai que nem canja e a mim cai mesmo a matar. Tenho assim oportunidade de conviver com o Eduardo Jorge e com o Sousa, trocando bem dispostas larachas e comentários aos casos da semana. Depois, à laia de pato-marreco que se move a compasso, de guarda-chuva aberto, atravessei a Praça da República e tomei a direcção da Baixa. Ao descer Alferes Malheiro, de uma janela escancarada num primeiro-andar, a sonora ironia espalhava-se pela rua:
O que é que você vai fazer domingo à tarde,
Pois eu quero convidar você prá sair comigo,
Passear por aí numa rua qualquer da cidade,
Vou dizer pra você tanta coisa que a ninguém eu digo.
Eu não tenho nada prá fazer domingo à tarde,
Pois domingo é um dia tão triste prá quem vive sozinho.
Quando eu vejo um casal namorando, é que eu sinto a verdade.
É tão triste passar o domingo sem ter um carinho.
Se você vive tão só, sei que vai me entender,
Sem amor é muito mais difícil a gente viver,
Pela última vez responda, mas diga a verdade,
Pois eu quero sair com você domingo à tarde.
------Há mais de meio-século que estes versos e a sua melodia, como canja, me caem no ouvido e me confortam esplendidamente, e tanto, a ponto de perdoar a todas as moscas que presumem perturbar-me e desejar-lhes empolgantes aterragens nas carecas dos doutores e de toda a porcaria pior do que a porcaria que até os Desabafos do JN, porque é deveras porcaria de mioleira falhada e falida, inunda de náusea e persiste em confrangedor processo de tónus imbecil.
------Acomodei-me como habitualmente no ciber-café On Web, local onde nos últimos anos aprendi quanto a estupidez é gratuíta, quanto a juventude é capaz de ser senil e quanto a presunção das ratazanas de esgoto podem rapidamente deslizar pela escada abaixo e num ápice fugirem pela escada acima. Como lamento não ser gato lazarento e esfomeado nessas alturas.
------Às seis-da-tarde, sem o esperar, apareceu-me o Alfredo Guedes, e saí logo da minhas queda habitual. Abandonei as teclas e fomos para a Rua do Sol, que até é a rua mais escura da Invicta. Oitenta metros adiante da Capela dos Alfaiates, iria ocorrer a abertura de um lugarzinho típico para se fruir o Fado. Por cima da entrada lia-se «Solar Mirandês».
------A sala estava bem posta e sentia-se que algo especial pairava no ar. Assim que entramos, estavam apenas o dono da casa, um empregado e, pela ampla janela que mostrava a cozinha, vi três afadigadas senhoras ao redor da culinária. O dono era o Samuel, um teimosão em fazer Fado. Já passou pela «Casa da Mariquinhas», pela «Guitarra» e por outras tentativas mais que se goraram entre a assolapante crise-de-tudo que não há meio de deixar-nos o raciocínio para nos libertar a pele.
------Entretanto os pré-avisados convidados foram chegando, o Manuel Granja, que canta e apresenta, os tocadores, Afonso Pinto, à guitarra portuguesa, e Ângelo Jorge, à guitarra clássica de acompanhamento, o Jorge Ferreira, a Elisabeth Pinto, e mais, muitos mais intérpretes e aficionados, até a sala ficar a abarrotar e o Samuel ver-se à rasca para acomodar toda a gente. A cogitar, fui dizendo para o meu fecho de correr: - O Guedes, sem dizer palavrinha, deu-me a volta que nem canja.
------Quando fui solicitado para declamar umas «vulgaríssimas quadrazinhas», algo de sentido óbvio e assaz básico, daquelas baixas coisinhas que os imbecis ao cúmulo, armados em pavões cheios de «coisa», tentam estupidamente rebaixar mais ainda, deu-me para baptizar a casa, uma vez que o Samuel tinha anunciado que ainda ia pensar num novo nome. Baptizei e ficou baptizada com aclamação geral: «Solar da Mariquinhas». O meu amigo Carlos do Carmo, após o encerramento da «Casa da Mariquinhas» na Sé, canta-lhe o funeral em Lisboa, mas eu, pimba, ressuscitei-a no Porto.
------De resto, oh, só agora a reflectir sobre o ensejo do expontâneo bafejo baptismante, é que aquilatato quanto abrangente foi o acto numa época em que os mariquinhas abundam como caganitas de coelho para os cães de caça farejarem.
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